Você pode já ter percebido que carros mais baratos começaram a ganhar equipamentos antes restritos a modelos mais caros. É o caso de monitor de pressão dos pneus, faróis e lanternas de led, start-stop, grade ativa e até bancos ventilados.

Acredite: todos eles, de alguma forma, ajudam a economizar combustível. Mas estão ganhando espaço por serem um meio relativamente fácil de melhorar a eficiência energética dos veículos e, com isso, reduzir a carga de impostos que incide sobre o custo do carro.

Acontece que os fabricantes que se inscreveram no Rota 2030 precisam, entre outras coisas, cumprir metas de eficiência para conseguir abatimento de até 2 pontos percentuais do IPI.

Até 2023 automóveis comercializados no Brasil precisarão estar pelo menos 11% mais eficientes, alcançando o índice médio de eficiência de 1,65 MJ/km. Uma redução no peso médio da frota, também prevista, deverá ajudar a alcançar esta meta.

Ao fim da primeira, justamente em 2023, existe a possibilidade de o IPI (imposto sobre produtos industrializados) passar a ser aplicado não mais pela capacidade cúbica do motor, mais pelo seu índice de eficiência.

Um dos meios de melhorar a nota de eficiência é adotar equipamentos que promovem redução de consumo na vida real, mas que dificilmente (para não dizer impossível) teriam impacto no consumo em ciclo normal de testes de eficiência.

Por exemplo, rodar com pneus na pressão correta e trocar as marchas no momento certo sempre ajudam a economizar combustível, desde que o motorista não os ignore.

Já o impacto do start-stop no consumo depende do tempo de cada parada e a grade ativa, capaz de abrir e fechar as aletas da grade para romper o ar com mais facilidade, atua em função de condições específicas de temperatura do motor e do ambiente.

Eles não teriam efeito sobre a nota de eficiência divulgada pelo Inmetro, calculada por meio de testes feitos em laboratório, com dinamômetro. Mas na vida real ajudam, sim, a fazer o combustível render um pouco mais no tanque.

Então, como estimular a presença destes equipamentos que promovem redução de consumo nos carros novos?

A solução foi garantir créditos sobre a nota de consumo aos modelos dotados com equipamentos que promovem redução real de consumo, ainda que indiretamente.

Até mesmo vidros refletivos, bancos ventilados – que ajudariam na eficiência térmica do ar-condicionado –, freios regenerativos e o simples fato de usar motor flex também garantem um abatimento no cálculo de eficiência, ajudando a melhorar a nota de cada carro.

Só não vale se o equipamento for opcional. Para ser considerado, os itens que garantem créditos precisam ser de série da versão.

Isso começou em 2018. O Inovar-Auto, regime automotivo que vigorou entre 2012 e 2017 para estimular a indústria automotiva e a eficiência de carros novos, não considerava estes equipamentos em seu projeto original. Mas os fabricantes pleitearam mudança.

A partir de 2015 ficou garantido uma espécie de crédito-bônus no cálculo de eficiência energética, que continua válido no Rota 2030 – substituto do Inovar-Auto lançado no final de 2018.

Este índice, obtido em megajoules por quilômetro (MJ/km) vem do programa de etiquetagem veicular do Conpet, que contempla medições de consumo e emissões, e classifica cada modelo vendido no mercado por meio de um índice de eficiência energética.

O cálculo de eficiência energética é complexo, mas os créditos podem ser facilmente resumidos. Veja na lista abaixo:

Start-stop: 0,0227 MJ/km em automóveis e 0,0439 MJ/km em comerciais leves;

Freios regenerativos: elevam o crédito do start-stop a 0,06 MJ/km;

Grade frontal ativa: 0,0049 MJ/km;

Iluminação por leds: limitado a 0,0079 MJ/km, respeitado os valores individuais de cada tecnologia conforme tabela abaixo:

Sistema de monitoramento de pressão dos pneus (TPMS): 0,0134 MJ/km;

Indicador de troca de marcha (GSI): 0,0134 MJ/km;

Aerodinâmica ativa: é baseado no percentual de redução de arrasto aerodinâmico, excluído o efeito da grade ativa, conforme tabela abaixo:

 DOU/Reprodução

Motor flex: até 0,04 MJ/km, dependendo da diferença de eficiência entre álcool e gasolina;

Ar condicionado com compressor variável: 0,04 MJ/km;

Bancos ventilados, vidros refletivos e pintura refletiva de calor: até 0,0250, conforme tabela abaixo:

 DOU/Reprodução

Em caso de tecnologias que não são contempladas na lista, os fabricantes têm a possibilidade de solicitar créditos apresentando um laudo feito por entidade independente mostrando o ganho de eficiência.

No entanto, testes extras podem ser exigidos para quantificar os ganhos e todo o custo é do fabricante. O limite de concessão extra é de 0,0351 MJ/km.

Créditos na prática

Uma coisa é importante salientar: as medições de consumo ainda têm maior peso nos índices de eficiência. Até porque o impacto desses créditos no cálculo final é pequeno e até ajuda a compensar a diferença de consumo entre as versões.

O mais curioso é observar a presença de uma parte destes equipamentos em carros com índices de eficiência ruins e notas baixas no programa de etiquetagem.

Por exemplo, o índice da Chevrolet Spin é de 1,91 MJ/km na versão LT 1.8 automática, conferindo nota D no segmento. Já o do Ford EcoSport é de 1,95 MJ/km, o equivalente a uma nota C, mesmo com motor três-cilindros 1.5 12V moderno. Em comum, ambos vêm com grade ativa.

Já o Hyundai Creta Prestige traz monitor de pressão dos pressão dos pneus e start-stop em todas as versões 2.0, mas não há diferença no índice para a versão topo de linha Prestige, com banco do motorista ventilado e lanternas de led: todos recebem nota D no segmento e C geral, com 2,05 MJ/km.

O Jeep Renegade possui start-stop de série, monitor de pressão dos pneus e a versão topo de linha com motor 1.8, Limited, tem faróis e lanternas de leds. Seu índice: 2,17 MJ/km, nota E no segmento.

Como o Fiat Argo foi lançado com start-stop de série e depois o equipamento se tornou opcional em algumas versões, é possível ver o impacto do sistema em sua nota. Na versão Precision 1.8 automática, o índice sobe de 1,90 para 1,99 MJ/km sem o equipamento. Mas a nota não deixa de ser E.

O antigo Argo 1.3 automatizado era ainda mais interessante. O start-stop fazia o índice passar de 1,64 para 1,57 MJ/km, diferença que fazia a sua nota de eficiência passar de B para A.

Fonte: Quatro Rodas